Monday, November 29, 2004

Sabino

Ganhei o primeiro aos 17 anos. Na época, devorava compulsivamente tudo que caísse em minhas mãos, de bula de remédio a manual de microondas. Paixão pelos clássicos...conhecer tudo em português era o mínimo a fazer, época de vestibular. Era quase chique ler Baudelaire, Hesse, Kerouac. Havia visto aquele livro perto da seção Agatha Christie no supermercado; boa coisa não devia ser. Despido da babaquice adolescente daquela fase, abri o “Encontro Marcado”. Li de uma sentada. Fechei. Comecei de novo, saboreando cada palavra. O Carlos era muito Hugo. E eu era muito Hugo, Eduardo, estava me tornando muito Mauro. As fases se intercalaram aos fatos, e as páginas, e as angústias, e aos porres. E havia encontrado Letícia. E as juras de amor eterno. Semanas de perturbações...o “Terror”, da manada de elefantes correndo contra a formiguinha solitária, os métodos da dolorosa experiência do “puxar angústia” se materializavam. Livro na estante, sossegou-se minha vida. Daí apareceu Antonieta.
Foram meses de esquecimento do mundo, até deixar aquela que tanto amei. Ao chegar de viagem, fui procurar as respostas. Achei empoeirado, sob um enorme livro de anatomia, Tomo I. Fui até o bar mais próximo, liguei para uma amiga e comecei a devorá-lo mais uma vez. Assim que chegou, a mocinha perguntou “Lendo isso de novo, André?” “É...preciso de respostas...”. Não encontrei o que procurava. Mas outras coisas que precisava ouvir. Reli e voltei à gaveta.
Ano e tanto depois...de busca, olho do furacão, bactérias, loucuras, fetos, encontros. Saudades de Carlos, às visitas sucediam sempre perguntas como “já encontrou seu caminho?”. “E a vida, companheiro?”
O caso com Gerlane fez com que eu voltasse a rabiscar as páginas do “Encontro”. Havia ido longe demais...haveria redenção?
“Já ouviu falar no livro X? Você deveria ler...” E, assim, nos idos de 2003, me desfiz do manual. Descobri depois que ele e todas os seus rabiscos e comentários escritos com sofreguidão, à meia-luz, foram parar para sempre, anônimos, em uma pilha qualquer.
Passou-se o tempo; a volta ao karatê, a busca de inocência perdida...o que era a tal essência mesmo...? Cada vez mais Mauro, Hugo e Eduardo, uma paz perturbada, as cotas seriam tão limitadas quanto parecem, tudo vale a pena? A mistura de déjà vu com jamais vu, foi-se tudo. “Bom..realmente queria o meu livro de volta...”, disse eu, engolindo qualquer polidez que aquele momento delicado da separação poderia exigir. Era minha vida, merda, não podia ficar rolando por aí.
Travou-se na noite seguinte o último confronto. “Vou ler de uma vez, rabiscar tudo, queimar com a ponta do cigarro, onde foi que errei?” Sessenta páginas depois, lia com sofreguidão, raiva. Mais duas horas de leitura e desisti. “Não encontrei nada”. Vi que havia esgotado os personagens. Dormi e acordei eu mesmo. Tempo é bom...mas eu funciono na base dos estalos. E o do sonho naquela noite me salvou. Não havia mais livro. Era hora de encontrar meu caminho. Estava em minha frente o tempo todo.“Hora de escrever minha própria história...”
Levantei, coloquei a minha mala nas costas, saí do hospital, vi o sol nascendo e fui ser feliz.

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