Proteus
- Chegou...olhe só o quintal...
Quase um filho indesejado. Pêlo lustroso, olhar desolado, cheio de brilho, marejado, passivo. Cachorros têm um ar especial aos dois, três meses; o desmame precoce, casa nova, direito indeferido no seu ir-e-vir que os da rua tinham e as paredes do quartinho dos fundos o negavam.
Não tinha o porte ou a nobreza do rei Elvis, sua árvore genealógica completa ou sua pelagem felpuda caramelo. Passou as primeiras horas fuçando tímido o chão e a ração acomodada de improviso em uma cuia já bem velha. Não latia nos primeiros dias, salvo à noite; mantinha o mesmo lance de olhos, um pedir colo carente com ares de “me ame”. Foi ficando, à revelia dos outros habitantes da casa. Acabei adotando-o, por pena, culpa. Não ser o favorito antes mesmo de chegar devia ser muito triste.
Passaram-se os dias, a primeira semana...o bichinho acostumara-se a roçar em minhas pernas enquanto estudava e parecia ter se habituado à fumaça dos cigarros. Experimentei passar a mão em suas costas uma vez, senti reciprocidade. Era uma amizade muda: ia achar ridículo ficar dizendo coisas como “oi, cachorrinho!” (sendo que o infeliz ainda não tinha nem nome), e “O papai chegou!”. Ele não latia, o que me parecia bastante agradável, e ficamos por isso mesmo.
Dar nome a algo é muito complexo. Tenho nomes para todos os meus filhos, fruto de anos de fosforilações, havia esgotado minha criatividade. Pensei em alguma bactéria, vírus..enterobactérias tinham nomes tão esdrúxulos...Proteus. Pronto. Meio grego, meio microbiologia, como o dono.
Tempo era um problema sério aquele mês. Provas, pessoas, preocupações, preocupações com pessoas. Calhou de um dia meu mundo implodir de um susto só. Abandono. Cheguei em casa com o olhar brilhoso, passivo, marejado, desolado. Sentei em minha cadeira habitual, abri o livro. Chegou Proteus; vi em seus olhos algo conhecido, como o que acabara de me confrontar no espelho do banheiro. Então entendi tudo. Disparei (nunca havia me referido ao cão antes) logo um “é, cara...a vida é complicada...”. Fui verborrágico, piegas, chato, sentimentalóide, prolixo. O meu novo amigo olhava, fuçava, roçava em minhas pernas, comia a ração. Os momentos de maior ênfase, quando a entonação mudava, faziam com que levantasse a cabeça e eu quase pudesse vê-la sacudindo, concordando com um muxoxo. Terminei o desabafo dizendo, transtornado “Viu...gente não presta...não presta!”. Fechei o livro, afaguei o cachorro e encostei a porta do quarto onde ele estava. Ouvi uma voz vindo da porta dizendo “Sossega, Carlos...a vida é assim mesmo...um dia a gente beija, outro não...”. Tomei um susto bem grande. Voltei-me para o corredor e sussurrei “não pode...não pode...”. Entrei em casa. Minha mãe estava na sala, e me recebeu com a mesma frase. Lívido, depois de engasgar conseguir perguntar o porquê daquilo, naquele dia, em tal hora. “Sua cara...”.
Noite seguinte estava o bicho de novo irrequieto. Havia percebido que mudaria novamente de casa, tema da discussão doméstica do dia. Não havia quem cuidasse dele...nem eu. Com pena, levei-o até a porta; a nova dona havia chegado. Não houve despedida. A nossa cumplicidade daquela noite havia ficado para sempre selada e, quem sabe, esquecida. Foi dócil até para entrar no carro. Entretanto, alguns metros após da partida, vi alguma chateação em seu semblante e quase juro ter ouvido “Gente não presta...não presta...”
Quase um filho indesejado. Pêlo lustroso, olhar desolado, cheio de brilho, marejado, passivo. Cachorros têm um ar especial aos dois, três meses; o desmame precoce, casa nova, direito indeferido no seu ir-e-vir que os da rua tinham e as paredes do quartinho dos fundos o negavam.
Não tinha o porte ou a nobreza do rei Elvis, sua árvore genealógica completa ou sua pelagem felpuda caramelo. Passou as primeiras horas fuçando tímido o chão e a ração acomodada de improviso em uma cuia já bem velha. Não latia nos primeiros dias, salvo à noite; mantinha o mesmo lance de olhos, um pedir colo carente com ares de “me ame”. Foi ficando, à revelia dos outros habitantes da casa. Acabei adotando-o, por pena, culpa. Não ser o favorito antes mesmo de chegar devia ser muito triste.
Passaram-se os dias, a primeira semana...o bichinho acostumara-se a roçar em minhas pernas enquanto estudava e parecia ter se habituado à fumaça dos cigarros. Experimentei passar a mão em suas costas uma vez, senti reciprocidade. Era uma amizade muda: ia achar ridículo ficar dizendo coisas como “oi, cachorrinho!” (sendo que o infeliz ainda não tinha nem nome), e “O papai chegou!”. Ele não latia, o que me parecia bastante agradável, e ficamos por isso mesmo.
Dar nome a algo é muito complexo. Tenho nomes para todos os meus filhos, fruto de anos de fosforilações, havia esgotado minha criatividade. Pensei em alguma bactéria, vírus..enterobactérias tinham nomes tão esdrúxulos...Proteus. Pronto. Meio grego, meio microbiologia, como o dono.
Tempo era um problema sério aquele mês. Provas, pessoas, preocupações, preocupações com pessoas. Calhou de um dia meu mundo implodir de um susto só. Abandono. Cheguei em casa com o olhar brilhoso, passivo, marejado, desolado. Sentei em minha cadeira habitual, abri o livro. Chegou Proteus; vi em seus olhos algo conhecido, como o que acabara de me confrontar no espelho do banheiro. Então entendi tudo. Disparei (nunca havia me referido ao cão antes) logo um “é, cara...a vida é complicada...”. Fui verborrágico, piegas, chato, sentimentalóide, prolixo. O meu novo amigo olhava, fuçava, roçava em minhas pernas, comia a ração. Os momentos de maior ênfase, quando a entonação mudava, faziam com que levantasse a cabeça e eu quase pudesse vê-la sacudindo, concordando com um muxoxo. Terminei o desabafo dizendo, transtornado “Viu...gente não presta...não presta!”. Fechei o livro, afaguei o cachorro e encostei a porta do quarto onde ele estava. Ouvi uma voz vindo da porta dizendo “Sossega, Carlos...a vida é assim mesmo...um dia a gente beija, outro não...”. Tomei um susto bem grande. Voltei-me para o corredor e sussurrei “não pode...não pode...”. Entrei em casa. Minha mãe estava na sala, e me recebeu com a mesma frase. Lívido, depois de engasgar conseguir perguntar o porquê daquilo, naquele dia, em tal hora. “Sua cara...”.
Noite seguinte estava o bicho de novo irrequieto. Havia percebido que mudaria novamente de casa, tema da discussão doméstica do dia. Não havia quem cuidasse dele...nem eu. Com pena, levei-o até a porta; a nova dona havia chegado. Não houve despedida. A nossa cumplicidade daquela noite havia ficado para sempre selada e, quem sabe, esquecida. Foi dócil até para entrar no carro. Entretanto, alguns metros após da partida, vi alguma chateação em seu semblante e quase juro ter ouvido “Gente não presta...não presta...”

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