Janelas
Acho que poucos lugares ou situações são mais solitárias que passar a noite em um hospital, trabalhando. Especificamente, quando falta trabalho. A cama estranha, a televisão de três canais e o cheiro de éter não ajudam muito, tornando as insônias recorrentes Surgem então as atividades esdrúxulas do pós-meia-noite: comer algum livro até o sono aparecer, ver o movimento do corredor, tentar lotar a laje de pontas de cigarro.
Uma janela. O máximo de contato com o mundo exterior, a normalidade onde todos aproveitam o domingo à noite para dar uns beijos, comer uma pizza com a família, esperar tranqüilo a segunda-feira chegar. Horas e horas de telefonemas na tal janela. Olhando por ali tinha a sensação de estar ligado de alguma forma ao que acontecia. Entre baforadas, já tentei descrever a várias pessoas o que havia de tão especial naquele canto do terceiro andar: uns prédios à esquerda, que julgava ser o Lacerdão, o Picadilly, barulho vindo do Bicho André (não sei o novo nome daquele lugar); à direita, a Estácio e o Convento. Ali o vento parece mais frio, um bom lugar para exercitar a solidão. É um sentir-se preso, estar amarrado. Sufoca. Preferia atender quinhentas grávidas em uma noite a purgar aqueles minutos olhando para absolutamente nada. Dormir é luxo; sono vem somente depois da exaustão completa.
Na laje em frente repousam os restos de cigarros que eventualmente encontro companhia para fumar. As noites são muito longas. Quando o barulho das festas cessa, sobra um nó na garganta e ruminar a semana inteira, pensar para onde olho para ver quem eu quero. Infelizmente a angulação da janela não tem sido muito favorável ao meu último propósito. Não sei bem nem muito bem para onde olho.
Achei que após o encontro comigo mesmo tudo fosse choque, e minhas visitas aos poucos perdessem a graça. Mas ela me espera todas as noites, acho. Deve rir da minha cara de preocupação, minhas tentativas de explicar o que estou vendo, da minha conta de telefone, que deve imaginar estratosférica, e é. Mas não deve estar entendendo o que tanto escrevo aqui, hoje, na ficha de evolução e identificação de pacientes. Afinal, ninguém chega à Maternidade há pelo menos umas três horas...a noite não passa...vou deitar...estou exausto.
Uma janela. O máximo de contato com o mundo exterior, a normalidade onde todos aproveitam o domingo à noite para dar uns beijos, comer uma pizza com a família, esperar tranqüilo a segunda-feira chegar. Horas e horas de telefonemas na tal janela. Olhando por ali tinha a sensação de estar ligado de alguma forma ao que acontecia. Entre baforadas, já tentei descrever a várias pessoas o que havia de tão especial naquele canto do terceiro andar: uns prédios à esquerda, que julgava ser o Lacerdão, o Picadilly, barulho vindo do Bicho André (não sei o novo nome daquele lugar); à direita, a Estácio e o Convento. Ali o vento parece mais frio, um bom lugar para exercitar a solidão. É um sentir-se preso, estar amarrado. Sufoca. Preferia atender quinhentas grávidas em uma noite a purgar aqueles minutos olhando para absolutamente nada. Dormir é luxo; sono vem somente depois da exaustão completa.
Na laje em frente repousam os restos de cigarros que eventualmente encontro companhia para fumar. As noites são muito longas. Quando o barulho das festas cessa, sobra um nó na garganta e ruminar a semana inteira, pensar para onde olho para ver quem eu quero. Infelizmente a angulação da janela não tem sido muito favorável ao meu último propósito. Não sei bem nem muito bem para onde olho.
Achei que após o encontro comigo mesmo tudo fosse choque, e minhas visitas aos poucos perdessem a graça. Mas ela me espera todas as noites, acho. Deve rir da minha cara de preocupação, minhas tentativas de explicar o que estou vendo, da minha conta de telefone, que deve imaginar estratosférica, e é. Mas não deve estar entendendo o que tanto escrevo aqui, hoje, na ficha de evolução e identificação de pacientes. Afinal, ninguém chega à Maternidade há pelo menos umas três horas...a noite não passa...vou deitar...estou exausto.

1 Comments:
Ela não imagina, mas os problemas se amenizam quando você descobre que se encontrar consigo mesmo é difícil, mas que é preciso soprar a auto-estima e ver o quanto especial você pode ser. É difícil nesse mundo pós moderno, ver além de mera repetição, mas o mundo não são palavras mas significados.. E esses só fazem sentido em um contexto - o que vc vive agora..
Adoro vc!!
bjs vivian
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